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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Um Deus Esclarecido

É do conhecimento de todos que sou budista, logo, fica subjacente a ideia de que sou ateu. Reflito constantemente a este respeito, tanto que agora fico em dúvida se já publiquei alguma destas não poucas reflexões. Se não o fiz, comentarei brevemente aqui (como introdução ao objeto real do presente texto), e aprofundarei melhor a ideia no futuro.

     Para resumir, não sou ateu. Mantenho-me em um nível de atividade espiritual no qual a questão "Deus existe?" não tem relevância. Exista ou não, qualquer dos cenários não serve como empecilho ou apoio na busca budista pela iluminação. Na mitologia budista os deuses, caso existam, estão na mesma busca. Dito isto, esclarecido então que mesmo sendo budista não sou ateu, informo que as divindades são também temas recorrentes de minhas reflexões pessoais. A divindade cristã foi objeto de meus pensamentos por longo período, até porque fui cristão fervoroso antes de minha conversão ao budismo. Uma vez budista e finalmente liberto dos preconceitos que a prática católica me incutiu, pude tentar conhecer melhor outras divindades. Foi neste cenário que tive contato com Krishna, um Deus Esclarecido. Krishna é um Deus carinhoso o qual, por amor incondicionado à humanidade, se faz homem para caminhar entre nós (isso te lembra alguém?). No livro Bhagavad Gita (e se você o ler nunca mais ouvirá Gita, do Raulzito, dá mesma maneira) Krishna já está em idade adulta, servindo como escudeiro de um príncipe e dando-lhe conselhos acerca de uma guerra que está prestes a acontecer. Mesmo em forma humana, o príncipe está consciente de que trata-se da suprema personalidade de Deus, assim o escrutina em busca de compreender melhor sua natureza (em busca de iluminação?).
     Quando falamos do conhecimento e comportamento humanos costumamos dizer que conhecimento é diferente de sabedoria. Um homem pode saber tudo e ser um tolo, ou ser um analfabeto profundamente sábio. Se os deuses foram feitos à nossa imagem e semelhança precisamos, ao menos por um instante, transferir esta interpretação para a esfera deles. Ou seja, ser onisciente não implica em ser "onicompriendente". Como budista não falo com divindades, mas como humano não sou capaz de transcender minha necessidade ancestral de um pai. Mesmo que seja apenas uma estratégia intelectual para organizar ideias, nos é imprescindível a presença de uma figura externa diferente do eu, mesmo que presumida, com a qual possamos dialogar e à qual possamos recorrer. Neste aspecto pode-se dizer que em momentos de fraqueza, solidão ou dúvida ser budista me remeteu a um sentimento de orfandade. Ora, sendo assim, como humano e fraco, logo, um budista nada exemplar, converso com Krishna. A cultura vaishnava tem um conceito no qual Krishna existe fora de nós, mas também dentro, o tempo todo, como nossa super-alma (e Raulzito disse "...Mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim."). Nenhuma diferença, penso, com o conceito de Espírito Santo que aprendemos no cristianismo, desde que se observe que no induísmos a ideia é muito mais reconhece-lo em nós do que ficar evocando-o, como fazemos no cristianismo (interessante é que o evocamos mesmo quando discursamos que ele já está em nós).
     Nesta manhã dialoguei com Krishna, minha super-alma, e percebi que não pode haver melhor amigo. De todos os seres ele é quem me conhece mais a fundo, conhece todas as ações e pensamentos, dos mais elevados aos mais tórridos, e ainda assim é o que menos julga. De fato, o único que não julga. Na mitologia indu todo crime, castigo, generosidade e recompensa são eventos do carma. A divindade é o pai do filho pródigo (e por favor registre, este é um conto budista, narrado no Sutra de Lótus alguns séculos antes das parábolas proferidas por Jesus). A divindade não julga nem condena. Ela apóia, orienta, e aguarda pacientemente o nosso retorno. Atingido por esta percepção de estar despido frente à divindade e ainda assim ser acolhido sem ressalvas, proferi internamente um vibrante "Krishna, você é foda!". Foi este momento que me levou a reconhecer a máxima que dá nome ao presente texto. O uso de tal palavra poderia ser considerado ofensivo por qualquer pessoa (inclusive por você, enquanto me lê), e totalmente inapropriado. Se associasse o termo a qualquer outra divindade seria prontamente censurado por seus seguidores, mas em relação a Krishna, minha super-alma, como poderia ter qualquer receio de ser mal interpretado? Ele sabia minha intenção antes de dizer qualquer coisa.
     Krishna é um Deus esclarecido. Isso é profundo. Às outras divindades atribuímos onisciência, mas saber tudo não é compreender tudo. Krishna compreende tudo. Eu não conheço a vida espiritual do leitor deste texto, suas crenças e valores. Tudo que sei é que uma vez me ensinaram sobre um Deus onipotente, desconcertantemente vaidoso, orgulhoso, ciumento e vingativo (se fui em que entendi tudo errado, me perdoem). Falavam de um tal livre arbítrio, mas ai de você se usar sua liberdade. Crê em outros deuses? Fogo. Pratica outra religião? Fogo. Faz ofertas lá? Fogo. Muitos anos depois conheci o Deus Esclarecido. O que ele diz? Crê em outros deuses? Todos sou eu. Pratica outras religiões? Todas trazem a mim. Faz ofertas lá? Recebo todas alegremente como se fossem para mim. um Deus admirável. Um Deus realmente esclarecido. Ciente da realidade da vida e da pequenez humana. Um Deus sem tempo para vaidade e ciúmes. Um Deus segundo a imagem e semelhança de um Deus, de mente e compressão infinitos, totalmente oposto à mente tacanha, medieval, primitiva dos deuses feitos por homens. Um Deus cujo propósito é o deleite, assistindo a criação, sendo a criação, vivendo o prazer de encher os pulmões de ar por intermédio de cada um de nós, enquanto o fazemos, revivendo o prazer de aprender, descobrir, errar, se ferir, através de cada novo ente que surge neste mundo e em outros. Neste universo e em outros. Ele não exige louvor, obediência, oferendas, dízimo, os orações, súplicas, sacrifícios, porque o seu prazer não é receber o que damos, é ser o que somos. Espera, no máximo, que nos esforcemos para nos manter conscientes da presença dele. Consciência de Krishna.
     É elementar que um teólogo julgará absurdas estas linhas. Não importa. Não me refiro aos seus deuses esculpidos em gelo. É elementar que um Hare Krishna me julgará leviano. Mas até eles podem estar abraçados a um Krishna de gelo. O Krishna que vejo ao olhar lá fora, sobretudo o Krishna que encontro ao olhar dentro de mim, é água corrente. Fluxo ininterrupto de vida, deleite, compreensão. Um Deus Esclarecido.

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